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| Imagem Ilustrativa |
Em uma decisão histórica para a preservação do patrimônio cultural e paisagístico do interior paulista, o Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo (CONDEPHAAT) oficializou, no início de fevereiro de 2026, a abertura do estudo de tombamento do Complexo Beira Rio, localizado em Piracicaba (SP).
A deliberação, ocorrida durante reunião ordinária do órgão no dia 9 de fevereiro, representa o primeiro passo concreto para que o conjunto se torne um patrimônio protegido em âmbito estadual. -
O escopo do estudo abrange um dos cartões-postais mais emblemáticos da cidade.
Fazem parte do complexo a histórica Fábrica Boyes (oficialmente Cia. Industrial e Agrícola Boyes), o imponente Palacete Luiz de Queiroz (também conhecido como Palacete Boyes), a Praça Ermelinda Ottoni de Souza Queiroz e o Museu da Água.
Todos esses bens estão situados às margens do rio Piracicaba, em uma área de inegável valor cênico e histórico, junto aos saltos d'água que marcam a geografia da cidade. -3.
Com a instauração do processo (nº 010.00013470/2023-09), os imóveis passam a gozar de proteção provisória. Isso significa que, enquanto durarem os estudos técnicos, qualquer intervenção, reforma ou demolição nesses locais depende de autorização prévia do CONDEPHAAT, sob pena de danos irreversíveis ao patrimônio cultural. -1-2.
O Valor Histórico do Conjunto
O parecer que fundamentou a abertura do estudo, relatado pelo conselheiro Eduardo Trani, destaca que o valor cultural do Complexo Beira Rio transcende as edificações isoladas.
O que se busca proteger é a leitura integrada da paisagem, unindo a memória industrial ao elemento natural do rio.
De acordo com o documento, a relevância estadual do local está diretamente ligada à relação histórica entre os conjuntos fabris da Boyes e do Engenho Central (já tombado pelo estado), que são marcos fundamentais da origem e do desenvolvimento industrial não só de Piracicaba, mas de todo o Estado de São Paulo. -3.
A área é reconhecida como um território onde se encontram a memória do trabalho, a industrialização e a água como força produtiva, além de seu inegável conteúdo simbólico para a identidade cultural piracicabana.
O Salto do Rio Piracicaba, cenário onde o complexo está inserido, é um elemento estruturador da formação urbana e cultural do município. -3.
O Imbróglio do Projeto Imobiliário e a Mobilização Popular
A decisão do CONDEPHAAT não ocorre por acaso. Ela é o desfecho (ou um novo capítulo) de uma longa disputa envolvendo interesses públicos e privados na região.
A área da Fábrica Boyes é alvo de um projeto imobiliário denominado Boulevard Boyes, que previa a demolição de seis dos treze prédios da antiga fábrica para a construção de quatro torres residenciais de aproximadamente 90 metros de altura às margens do rio -1-5.
O projeto chegou a ser aprovado em 2023 pelo Codepac, o conselho municipal de defesa do patrimônio de Piracicaba.
No entanto, a decisão gerou forte reação de movimentos sociais, ambientalistas e da sociedade civil organizada, que se uniram no Movimento Salve a Boyes.
O grupo questionava não apenas a destruição do patrimônio fabril, mas também o impacto urbanístico e paisagístico que as torres causariam na região do entorno do rio, uma área já tombada municipalmente desde 2004. -
A pressão popular surtiu efeito na Justiça. Em 2025, uma decisão do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) suspendeu o empreendimento.
O relator do caso considerou que a obra poderia gerar danos irreversíveis e determinou que qualquer avanço no projeto ficasse condicionado à conclusão do processo de tombamento estadual.
Paralelamente, o Movimento Salve a Boyes, com apoio de parlamentares como o deputado estadual Luiz Claudio Marcolino, protocolou pedidos de tombamento no CONDEPHAAT e no Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), solicitando urgência na análise para garantir a proteção definitiva do complexo. -
A abertura do estudo agora é vista como uma conquista coletiva e um reconhecimento da importância da memória fabril e industrial para a história paulista.
O Significado do Tombamento Estadual
Mas, afinal, qual a diferença entre o tombamento municipal, já existente em parte da área, e o estadual?
O arquiteto e professor da Unicamp, Marcos Tognon, explica que o tombamento pelo CONDEPHAAT insere o bem em um contexto mais amplo.
"Se for tombado pelo Estado, significa que o Estado de São Paulo reconhece a importância do conjunto Beira Rio de Piracicaba como algo importante para contar a história do Estado de São Paulo", afirmou em entrevista. -
O especialista destaca que, enquanto o tombamento municipal reconhece a relevância do bem para a história da cidade, o estadual avalia sua importância na história econômica da região e sua relação com outros bens tombados no estado, formando uma rede de significados históricos, como no caso do processo de industrialização paulista.
Além disso, o tombamento estadual funciona como uma instância adicional de salvaguarda, especialmente em contextos onde conselhos municipais podem sofrer pressões políticas locais. -
Próximos Passos
Com a abertura do processo, o CONDEPHAAT inicia agora a fase de aprofundamento dos estudos.
Técnicos do órgão realizarão análises detalhadas das características arquitetônicas, históricas e culturais do bem, assim como sua relevância para a paisagem urbana e a memória coletiva -4.
O CONDEPHAAT não estipulou um prazo para a conclusão dos trabalhos.
Após a finalização do laudo técnico, o processo será novamente levado a votação pelos conselheiros, que poderão decidir pelo tombamento definitivo (total ou parcial do conjunto) ou pelo arquivamento do processo -5.
Enquanto isso, a proteção provisória garante que nenhuma intervenção poderá descaracterizar os imóveis.
A decisão final, aguardada com expectativa pela cidade, definirá o futuro de um dos lugares mais simbólicos de Piracicaba e estabelecerá um precedente importante para a preservação do patrimônio industrial em todo o Estado de São Paulo.
O desafio, como destacam especialistas e movimentos sociais, é conciliar a preservação da memória com usos sustentáveis que permitam à população usufruir desse importante espaço público às margens do rio.
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Quadro Histórico: A Fábrica Boyes e a Industrialização de Piracicaba
A história da Fábrica Boyes se confunde com a própria industrialização de Piracicaba e do interior paulista.
Fundada no final do século XIX, a Cia. Industrial e Agrícola Boyes foi uma das pioneiras no aproveitamento da força hidráulica do rio Piracicaba para a produção têxtil.
Durante décadas, suas chaminés e galpões não apenas moldaram a paisagem da cidade, mas também foram o centro da vida operária de centenas de famílias, impulsionando a economia local e atraindo investimentos para a região.
O Palacete Luiz de Queiroz, construído como residência dos proprietários da fábrica, é um exemplar da arquitetura eclética do início do século XX e simboliza o poder econômico da elite industrial da época.
Juntamente com a Praça Ermelinda Ottoni de Souza Queiroz e o Museu da Água (que conta a história do saneamento e do uso dos recursos hídricos), o conjunto forma um raro testemunho material da relação entre o homem, o trabalho e o rio.
Esse complexo é, portanto, um dos últimos remanescentes significativos do ciclo industrial que transformou Piracicaba em um polo econômico, justificando plenamente o interesse na sua preservação como memória viva da cidade e do estado.
Por : José Santos (Maestro Cidão) Publicitário / Jornalista - Mtb: 007.4524/SP

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